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9 de abr. de 2012

Para fechar com chave de ouro


– Por que o troll não comeu aquele mestiço? – perguntou Grenda, apontando para Khanat, enquanto caminhava na direção do troll, limpando o sangue do urso de sua espada.
– Vai entender essas criaturas. – respondeu o bárbaro, prendendo um de seus machados às costas e apanhando um escudo longo, de metal escuro, do chão – Estranho é que eu podia jurar que ele estava com o braço ensangüentado agora há pouco.
– Por isso você não conseguiu atingir o urso-vil antes, fica desviando sua concentração do oponente. – disse ela, olhando para ele com um sorriso sacana. Mas, Torghal não retribuiu, ao invés disso, correu para cima do troll, deixando-a para trás.
– Concentração, Pequenina! – gritou ele, atraindo a atenção do troll.
Khanat observava o meio-orc brutamonte se aproximar do monstro que, agachado, tinha quase a mesma altura que ele. Só era possível perceber que ele era um mestiço por três razões – porém bastante significativas – seu porte, seu tom de pele levemente acinzentado e os caninos largos e compridos, que por pouco não saíam de sua boca. O gladiador bárbaro corria para o troll, que se virou e ergueu o corpo, ao perceber sua aproximação, alcançando três metros em uma postura de desafio. Ao invés de se intimidar, Torghal correu ainda mais depressa na direção da criatura.
– O que eu faço? – gritou Khanat, para Grenda.
Ela inicialmente o ignorou e diminuiu o passo, caminhando.
– Incendeie a ponta de sua flecha e aguarde meu sinal. – gritou a pequena mestiça, caminhando apressada em direção à Khanat – Quem é você afinal?
Ao alcançar o troll, Torghal deslizou pela areia, apoiado em suas joelheiras, passando por entre as pernas do oponente, que golpeou apenas o ar com seu porrete. Enquanto passava por debaixo da criatura, golpeou com seu machado o tornozelo direito do monstro, separando-o, junto com o pé, do resto da perna. O troll urrou de dor, ao se apoiar sobre a perna ferida, mas não caiu. A platéia gritava o nome de Torghal.
– Consegue acertar a perna dele? – perguntou Grenda, apontando para o troll.
– Acho que sim. – respondeu Khanat, fazendo mira com a flecha em chamas na direção da perna do monstro.
– Atinja o mais próximo do ferimento que puder.
A criatura se aproximava, mancando sobre a perna mutilada, na direção de Torghal. Era nítida a dor que sentia a cada passada, mas, avançava mesmo assim, como se cada passo representasse um desafio ao seu oponente.  O bárbaro, percebendo que Khanat preparava-se para disparar a flecha, recuava lentamente, forçando o troll a caminhar mais. A perna da criatura começava a se comportar de maneira estranha. Algo parecia querer brotar através do ferimento. Ele tremeu e caiu. Infelizmente, caiu exatamente no momento que Khanat disparava a flecha, que, passou perto, mas não atingiu o alvo.
– Droga! Tente de novo, rápido! – gritou Grenda para Khanat, enquanto começava a correr na direção do troll.
– Eu avisei para guardar o ácido! – gritava Torghal para Grenda, enquanto também corria na direção do monstro.
O troll observava os inimigos se aproximarem enquanto ossos saiam do ferimento em sua perna, tomando uma configuração semelhante à de seu outro pé. Logo ligamentos musculares e pele começaram a cobrir os ossos. As dores do pé do troll pareciam se reduzir enquanto ele, ainda caído, era golpeado pela espada de Grenda, causando cortes em sua face e ombros. A criatura não tinha agilidade suficiente para escapar dos golpes da pequenina, porém, ela, tampouco, possuía força suficiente para, causar grandes danos. A criatura, inquieta, esquivava-se impedindo que Grenda conseguisse um bom ângulo, para uma estocada profunda, ou um corte mais preciso. Porém, o troll também não conseguia bons ataques, dentre os quais, os que não eram facilmente evitados pela meio-elfa, atingiam seu escudo, com o qual ela, mais do que absorver, desviava os golpes do inimigo.
No entanto, o principal objetivo de Grenda estava cumprido, desviar a atenção do troll de Torghal. O pé do monstro estava praticamente reconstruído, quando o bárbaro cravou seu machado em sua cabeça, abrindo-lhe o crânio em um corte vertical, do topo da cabeça até a altura dos olhos. A gritaria do público era quase ensurdecedora, enquanto o sangue escorria pelo corpo do troll que se levantava lentamente com a arma de Torghal presa ao topo da cabeça. O bárbaro, dando alguns passos para trás, parcialmente escondido atrás do escudo, buscou seu outro machado, preso às suas costas.
Grenda acenava para que Khanat disparasse a outra flecha, mas ele estava tão surpreso com o fato da criatura ainda estar viva que mal percebia os sinais dela. Quando finalmente voltou a si, o troll lutava contra Torghal, enquanto Grenda perfurava a criatura  repetidamente com sua pequena espada, como se precisasse fazer o oponente sangrar o máximo possível.  Tendo em vista que a criatura não morreu com um golpe na cabeça, Khanat julgou que o melhor seria buscar algum órgão vital no tórax e disparou a flecha no meio das costas do monstro.
Ao perceber a flecha cortando o ar rapidamente, Torghal esboçou um sorriso e saltou para trás, afastando-se do troll. Grenda, apesar de não ter visto Khanat disparar, por estar de costas para ele, compreendeu a atitude de seu parceiro e rolou para trás, pouco antes da flecha atingir o monstro. Ao entrar em contato com o fogo, o sangue da criatura entrou em combustão como se fosse óleo. O troll urrou e ainda deu alguns passos na direção de Torghal, mas em pouco segundos foi ao chão, encolheu-se em posição fetal e logo parou de se mover, morto.
A plateia, de pé ovacionava os lutadores. Grenda dirigiu-se ao centro da arena e erguia sua arma e escudo, em gesto de vitória. Sem dizer uma palavra, Torghal prendeu seu machado às costas, soltou o escudo, olhou tristemente para o outro machado, muito avariado pelas chamas que ainda queimavam o troll e foi até Khanat. Parou frente a ele, fitando-o com um olhar tão intimidador, que Khanat quase se encolheu, mas, apesar de confuso, e assustado, ele não era um covarde. Na verdade, o que parecia o impelir a se defender era mais uma espécie de senso de autopreservação do que medo, pois sua mente, na medida do possível para o contexto, estava sob seu controle. Mas, para sua surpresa, o bárbaro pegou sua mão e ergueu, fazendo com que ele comemorasse junto com ele. Khanat se permitiu um sorriso, mas logo Torghal o arrancou de seu rosto.
– Acredite, eu estou salvando sua vida. – disse o meio-orc, golpeando Khanat em seguida, com um soco tão forte, que o pôs inconsciente de imediato.
O barulho ensurdecedor da plateia diminuiu quando o Rei Nuthen V se levantou da tribuna de honra e praticamente se silenciou quando ele começou a falar. Torghal e Grenda abaixaram-se em reverência quando o rei se dirigiu a eles. Sua voz grave ecoou na arena, intensificada por algum encantamento utilizado na construção do edifício pelos antepassados dos nobres arquitetos de Nuthenim.
- Torghal e Grenda, o Tambor e a Flauta. – Torghal quase tremeu ao ouvir, mas o Rei logo continuou – Hoje é o dia que marca a liberdade de vocês, que aqui chegaram como escravos rebeldes, fadados à morte na arena. Porém, ao invés de rebeldes, vocês demonstraram ser, na verdade indomáveis gladiadores que, juntos, venceram 99 lutas em 5 anos sob os aplausos e a adoração do povo de Nuthenim!