– Por que o
troll não comeu aquele mestiço? – perguntou Grenda, apontando para Khanat,
enquanto caminhava na direção do troll, limpando o sangue do urso de sua
espada.
– Vai
entender essas criaturas. – respondeu o bárbaro, prendendo um de seus machados
às costas e apanhando um escudo longo, de metal escuro, do chão – Estranho é
que eu podia jurar que ele estava com o braço ensangüentado agora há pouco.
– Por isso
você não conseguiu atingir o urso-vil antes, fica desviando sua concentração do
oponente. – disse ela, olhando para ele com um sorriso sacana. Mas, Torghal não
retribuiu, ao invés disso, correu para cima do troll, deixando-a para trás.
–
Concentração, Pequenina! – gritou ele, atraindo a atenção do troll.
Khanat
observava o meio-orc brutamonte se aproximar do monstro que, agachado, tinha
quase a mesma altura que ele. Só era possível perceber que ele era um mestiço
por três razões – porém bastante significativas – seu porte, seu tom de pele
levemente acinzentado e os caninos largos e compridos, que por pouco não saíam
de sua boca. O gladiador bárbaro corria para o troll, que se virou e ergueu o
corpo, ao perceber sua aproximação, alcançando três metros em uma postura de
desafio. Ao invés de se intimidar, Torghal correu ainda mais depressa na
direção da criatura.
– O que eu
faço? – gritou Khanat, para Grenda.
Ela
inicialmente o ignorou e diminuiu o passo, caminhando.
– Incendeie a
ponta de sua flecha e aguarde meu sinal. – gritou a pequena mestiça, caminhando
apressada em direção à Khanat – Quem é você afinal?
Ao alcançar o
troll, Torghal deslizou pela areia, apoiado em suas joelheiras, passando por
entre as pernas do oponente, que golpeou apenas o ar com seu porrete. Enquanto
passava por debaixo da criatura, golpeou com seu machado o tornozelo direito do
monstro, separando-o, junto com o pé, do resto da perna. O troll urrou de dor,
ao se apoiar sobre a perna ferida, mas não caiu. A platéia gritava o nome de
Torghal.
– Consegue
acertar a perna dele? – perguntou Grenda, apontando para o troll.
– Acho que
sim. – respondeu Khanat, fazendo mira com a flecha em chamas na direção da
perna do monstro.
– Atinja o
mais próximo do ferimento que puder.
A criatura se
aproximava, mancando sobre a perna mutilada, na direção de Torghal. Era nítida
a dor que sentia a cada passada, mas, avançava mesmo assim, como se cada passo
representasse um desafio ao seu oponente.
O bárbaro, percebendo que Khanat preparava-se para disparar a flecha,
recuava lentamente, forçando o troll a caminhar mais. A perna da criatura
começava a se comportar de maneira estranha. Algo parecia querer brotar através
do ferimento. Ele tremeu e caiu. Infelizmente, caiu exatamente no momento que
Khanat disparava a flecha, que, passou perto, mas não atingiu o alvo.
– Droga!
Tente de novo, rápido! – gritou Grenda para Khanat, enquanto começava a correr
na direção do troll.
– Eu avisei
para guardar o ácido! – gritava Torghal para Grenda, enquanto também corria na
direção do monstro.
O troll
observava os inimigos se aproximarem enquanto ossos saiam do ferimento em sua
perna, tomando uma configuração semelhante à de seu outro pé. Logo ligamentos
musculares e pele começaram a cobrir os ossos. As dores do pé do troll pareciam
se reduzir enquanto ele, ainda caído, era golpeado pela espada de Grenda,
causando cortes em sua face e ombros. A criatura não tinha agilidade suficiente
para escapar dos golpes da pequenina, porém, ela, tampouco, possuía força
suficiente para, causar grandes danos. A criatura, inquieta, esquivava-se
impedindo que Grenda conseguisse um bom ângulo, para uma estocada profunda, ou
um corte mais preciso. Porém, o troll também não conseguia bons ataques, dentre
os quais, os que não eram facilmente evitados pela meio-elfa, atingiam seu
escudo, com o qual ela, mais do que absorver, desviava os golpes do inimigo.
No entanto, o
principal objetivo de Grenda estava cumprido, desviar a atenção do troll de
Torghal. O pé do monstro estava praticamente reconstruído, quando o bárbaro
cravou seu machado em sua cabeça, abrindo-lhe o crânio em um corte vertical, do
topo da cabeça até a altura dos olhos. A gritaria do público era quase
ensurdecedora, enquanto o sangue escorria pelo corpo do troll que se levantava
lentamente com a arma de Torghal presa ao topo da cabeça. O bárbaro, dando
alguns passos para trás, parcialmente escondido atrás do escudo, buscou seu
outro machado, preso às suas costas.
Grenda
acenava para que Khanat disparasse a outra flecha, mas ele estava tão surpreso
com o fato da criatura ainda estar viva que mal percebia os sinais dela. Quando
finalmente voltou a si, o troll lutava contra Torghal, enquanto Grenda
perfurava a criatura repetidamente com
sua pequena espada, como se precisasse fazer o oponente sangrar o máximo
possível. Tendo em vista que a criatura
não morreu com um golpe na cabeça, Khanat julgou que o melhor seria buscar
algum órgão vital no tórax e disparou a flecha no meio das costas do monstro.
Ao perceber a
flecha cortando o ar rapidamente, Torghal esboçou um sorriso e saltou para
trás, afastando-se do troll. Grenda, apesar de não ter visto Khanat disparar,
por estar de costas para ele, compreendeu a atitude de seu parceiro e rolou
para trás, pouco antes da flecha atingir o monstro. Ao entrar em contato com o
fogo, o sangue da criatura entrou em combustão como se fosse óleo. O troll
urrou e ainda deu alguns passos na direção de Torghal, mas em pouco segundos
foi ao chão, encolheu-se em posição fetal e logo parou de se mover, morto.
A plateia, de
pé ovacionava os lutadores. Grenda dirigiu-se ao centro da arena e erguia sua
arma e escudo, em gesto de vitória. Sem dizer uma palavra, Torghal prendeu seu
machado às costas, soltou o escudo, olhou tristemente para o outro machado,
muito avariado pelas chamas que ainda queimavam o troll e foi até Khanat. Parou
frente a ele, fitando-o com um olhar tão intimidador, que Khanat quase se
encolheu, mas, apesar de confuso, e assustado, ele não era um covarde. Na
verdade, o que parecia o impelir a se defender era mais uma espécie de senso de
autopreservação do que medo, pois sua mente, na medida do possível para o
contexto, estava sob seu controle. Mas, para sua surpresa, o bárbaro pegou sua
mão e ergueu, fazendo com que ele comemorasse junto com ele. Khanat se permitiu
um sorriso, mas logo Torghal o arrancou de seu rosto.
– Acredite,
eu estou salvando sua vida. – disse o meio-orc, golpeando Khanat em seguida,
com um soco tão forte, que o pôs inconsciente de imediato.
O barulho
ensurdecedor da plateia diminuiu quando o Rei Nuthen V se levantou da tribuna
de honra e praticamente se silenciou quando ele começou a falar. Torghal e
Grenda abaixaram-se em reverência quando o rei se dirigiu a eles. Sua voz grave
ecoou na arena, intensificada por algum encantamento utilizado na construção do
edifício pelos antepassados dos nobres arquitetos de Nuthenim.
- Torghal e Grenda, o Tambor e a Flauta. – Torghal
quase tremeu ao ouvir, mas o Rei logo continuou – Hoje é o dia que marca a
liberdade de vocês, que aqui chegaram como escravos rebeldes, fadados à morte
na arena. Porém, ao invés de rebeldes, vocês demonstraram ser, na verdade
indomáveis gladiadores que, juntos, venceram 99 lutas em 5 anos sob os aplausos
e a adoração do povo de Nuthenim!
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