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9 de abr. de 2012

Para fechar com chave de ouro


– Por que o troll não comeu aquele mestiço? – perguntou Grenda, apontando para Khanat, enquanto caminhava na direção do troll, limpando o sangue do urso de sua espada.
– Vai entender essas criaturas. – respondeu o bárbaro, prendendo um de seus machados às costas e apanhando um escudo longo, de metal escuro, do chão – Estranho é que eu podia jurar que ele estava com o braço ensangüentado agora há pouco.
– Por isso você não conseguiu atingir o urso-vil antes, fica desviando sua concentração do oponente. – disse ela, olhando para ele com um sorriso sacana. Mas, Torghal não retribuiu, ao invés disso, correu para cima do troll, deixando-a para trás.
– Concentração, Pequenina! – gritou ele, atraindo a atenção do troll.
Khanat observava o meio-orc brutamonte se aproximar do monstro que, agachado, tinha quase a mesma altura que ele. Só era possível perceber que ele era um mestiço por três razões – porém bastante significativas – seu porte, seu tom de pele levemente acinzentado e os caninos largos e compridos, que por pouco não saíam de sua boca. O gladiador bárbaro corria para o troll, que se virou e ergueu o corpo, ao perceber sua aproximação, alcançando três metros em uma postura de desafio. Ao invés de se intimidar, Torghal correu ainda mais depressa na direção da criatura.
– O que eu faço? – gritou Khanat, para Grenda.
Ela inicialmente o ignorou e diminuiu o passo, caminhando.
– Incendeie a ponta de sua flecha e aguarde meu sinal. – gritou a pequena mestiça, caminhando apressada em direção à Khanat – Quem é você afinal?
Ao alcançar o troll, Torghal deslizou pela areia, apoiado em suas joelheiras, passando por entre as pernas do oponente, que golpeou apenas o ar com seu porrete. Enquanto passava por debaixo da criatura, golpeou com seu machado o tornozelo direito do monstro, separando-o, junto com o pé, do resto da perna. O troll urrou de dor, ao se apoiar sobre a perna ferida, mas não caiu. A platéia gritava o nome de Torghal.
– Consegue acertar a perna dele? – perguntou Grenda, apontando para o troll.
– Acho que sim. – respondeu Khanat, fazendo mira com a flecha em chamas na direção da perna do monstro.
– Atinja o mais próximo do ferimento que puder.
A criatura se aproximava, mancando sobre a perna mutilada, na direção de Torghal. Era nítida a dor que sentia a cada passada, mas, avançava mesmo assim, como se cada passo representasse um desafio ao seu oponente.  O bárbaro, percebendo que Khanat preparava-se para disparar a flecha, recuava lentamente, forçando o troll a caminhar mais. A perna da criatura começava a se comportar de maneira estranha. Algo parecia querer brotar através do ferimento. Ele tremeu e caiu. Infelizmente, caiu exatamente no momento que Khanat disparava a flecha, que, passou perto, mas não atingiu o alvo.
– Droga! Tente de novo, rápido! – gritou Grenda para Khanat, enquanto começava a correr na direção do troll.
– Eu avisei para guardar o ácido! – gritava Torghal para Grenda, enquanto também corria na direção do monstro.
O troll observava os inimigos se aproximarem enquanto ossos saiam do ferimento em sua perna, tomando uma configuração semelhante à de seu outro pé. Logo ligamentos musculares e pele começaram a cobrir os ossos. As dores do pé do troll pareciam se reduzir enquanto ele, ainda caído, era golpeado pela espada de Grenda, causando cortes em sua face e ombros. A criatura não tinha agilidade suficiente para escapar dos golpes da pequenina, porém, ela, tampouco, possuía força suficiente para, causar grandes danos. A criatura, inquieta, esquivava-se impedindo que Grenda conseguisse um bom ângulo, para uma estocada profunda, ou um corte mais preciso. Porém, o troll também não conseguia bons ataques, dentre os quais, os que não eram facilmente evitados pela meio-elfa, atingiam seu escudo, com o qual ela, mais do que absorver, desviava os golpes do inimigo.
No entanto, o principal objetivo de Grenda estava cumprido, desviar a atenção do troll de Torghal. O pé do monstro estava praticamente reconstruído, quando o bárbaro cravou seu machado em sua cabeça, abrindo-lhe o crânio em um corte vertical, do topo da cabeça até a altura dos olhos. A gritaria do público era quase ensurdecedora, enquanto o sangue escorria pelo corpo do troll que se levantava lentamente com a arma de Torghal presa ao topo da cabeça. O bárbaro, dando alguns passos para trás, parcialmente escondido atrás do escudo, buscou seu outro machado, preso às suas costas.
Grenda acenava para que Khanat disparasse a outra flecha, mas ele estava tão surpreso com o fato da criatura ainda estar viva que mal percebia os sinais dela. Quando finalmente voltou a si, o troll lutava contra Torghal, enquanto Grenda perfurava a criatura  repetidamente com sua pequena espada, como se precisasse fazer o oponente sangrar o máximo possível.  Tendo em vista que a criatura não morreu com um golpe na cabeça, Khanat julgou que o melhor seria buscar algum órgão vital no tórax e disparou a flecha no meio das costas do monstro.
Ao perceber a flecha cortando o ar rapidamente, Torghal esboçou um sorriso e saltou para trás, afastando-se do troll. Grenda, apesar de não ter visto Khanat disparar, por estar de costas para ele, compreendeu a atitude de seu parceiro e rolou para trás, pouco antes da flecha atingir o monstro. Ao entrar em contato com o fogo, o sangue da criatura entrou em combustão como se fosse óleo. O troll urrou e ainda deu alguns passos na direção de Torghal, mas em pouco segundos foi ao chão, encolheu-se em posição fetal e logo parou de se mover, morto.
A plateia, de pé ovacionava os lutadores. Grenda dirigiu-se ao centro da arena e erguia sua arma e escudo, em gesto de vitória. Sem dizer uma palavra, Torghal prendeu seu machado às costas, soltou o escudo, olhou tristemente para o outro machado, muito avariado pelas chamas que ainda queimavam o troll e foi até Khanat. Parou frente a ele, fitando-o com um olhar tão intimidador, que Khanat quase se encolheu, mas, apesar de confuso, e assustado, ele não era um covarde. Na verdade, o que parecia o impelir a se defender era mais uma espécie de senso de autopreservação do que medo, pois sua mente, na medida do possível para o contexto, estava sob seu controle. Mas, para sua surpresa, o bárbaro pegou sua mão e ergueu, fazendo com que ele comemorasse junto com ele. Khanat se permitiu um sorriso, mas logo Torghal o arrancou de seu rosto.
– Acredite, eu estou salvando sua vida. – disse o meio-orc, golpeando Khanat em seguida, com um soco tão forte, que o pôs inconsciente de imediato.
O barulho ensurdecedor da plateia diminuiu quando o Rei Nuthen V se levantou da tribuna de honra e praticamente se silenciou quando ele começou a falar. Torghal e Grenda abaixaram-se em reverência quando o rei se dirigiu a eles. Sua voz grave ecoou na arena, intensificada por algum encantamento utilizado na construção do edifício pelos antepassados dos nobres arquitetos de Nuthenim.
- Torghal e Grenda, o Tambor e a Flauta. – Torghal quase tremeu ao ouvir, mas o Rei logo continuou – Hoje é o dia que marca a liberdade de vocês, que aqui chegaram como escravos rebeldes, fadados à morte na arena. Porém, ao invés de rebeldes, vocês demonstraram ser, na verdade indomáveis gladiadores que, juntos, venceram 99 lutas em 5 anos sob os aplausos e a adoração do povo de Nuthenim!

4 de jul. de 2011

Do Sonho à Arena

A luz do Sol atravessa a copa das árvores pelas lacunas deixadas pelos galhos e folhas. Vez ou outra uma mancha de luz inunda seus olhos, ofuscando a visão das árvores dançando ao vento. Pouco a pouco a vista foca, a tempo de ver a revoada de pássaros abandonando o espelho d’água do lago ao lado. A paisagem não poderia ser mais bela. Era possível até mesmo sentir a brisa fresca que descia das montanhas ao longe, encrespava as águas e acariciava seu rosto enquanto ele se levantava, sem qualquer esforço.

– Desperte, meu filho. – a voz feminina e acolhedora vinha de suas costas.

Ele se virou e avistou a mulher. Estava vestida com trajes mínimos, que pareciam vivos, constituídos de folhas verdes, finos cipós e raízes. Seu corpo esguio não se abstinha de ter curvas sensuais, mas ele não sentia tal tipo de atração por ela, embora sua presença fosse indescritivelmente agradável e acolhedora. Enquanto o Sol banhava o corpo da mulher desde seu pescoço até seus pés, sua cabeça permanecia à sombra, revelando apenas a silhueta de longos cabelos ondulados e orelhas longas e pontudas, que pareciam se lançar para fora das madeixas negras.

– Uma elfa. – pensou alto, ele, enquanto dava um passo na direção dela.

– Desperte. – insistiu, ela, agora um menos amigável, embora distante de ser agressiva – Sua vida corre perigo. Nossa vida.

– Eu não entendo. – ele deu mais um passo na direção dela, que recuava, embora não desse qualquer passo atrás.

– Seu nome é Khanat e você deve compreender. – a imagem da mulher piscou, desapareceu e surgiu novamente atrás dele – Agora você deve despertar, ou nós vamos morrer.

– O que? – ele tentou se virar, percebendo, para seu espanto, que a paisagem era igual em todas as direções e que, independente de para onde estivesse virado, a mulher permanecia em suas costas – Quem é você?

– Chegou a hora, jogue os feridos e os inconscientes na arena para atrair os trolls! – a voz da mulher se transformou em um grito masculino, grave e rude e Khanat sentiu uma forte dor no ombro esquerdo, forte o suficiente para trazê-lo de volta à consciência.

A sua frente estava, através de grades de metal negro, o rosto de um anão, parcialmente coberto por um elmo repleto de arranhões e manchas de sangue coagulado. Ainda atordoado, Khanat mal conseguia fixar sua visão. Tentou se erguer, apoiado sobre o braço direito e os joelhos, mas a superfície sobre a qual estava era muito irregular e instável. Olhou para baixo, estava sobre outras pessoas! Homens, mulheres e anões, desacordados e feridos gravemente.

– O que está havendo? Onde eu estou? – gritou para o anão com o elmo.

– Um deles acordou! – gritou o anão, falando com alguém que Khanat não conseguia avistar de onde estava e retirando a mão da alavanca, presa à parede de pedras cinzentas, que segurava.

– Não importa. Todos já foram dados como mortos, ou inutilizados. Joguem na arena logo! – respondeu uma voz que ecoou pela câmara onde estava o anão, que prontamente retornou a mão à alavanca e a puxou.

– Espere! – Khanat tentou avançar em direção ao anão e se segurar nas grades, enquanto o chão abaixo dele e das outras pessoas se inclinava para trás e a luz, que passava por uma porta que se abria na mesma direção, iluminava o rosto do seu carrasco, que espremia os olhos defendendo-se da claridade – Maldito! Eu vou... Argh! – ao tentar avançar, apoiando-se no braço esquerdo, uma dor descomunal percorreu o corpo de Khanat, desde seu cotovelo esquerdo até a base de sua nuca.

Sangue espirrou em seu rosto quando um dos ossos de seu antebraço rompeu uma de suas artérias. Seu braço esquerdo estava dilacerado e mal era possível reconhecê-lo como um membro humano. Porém, parecia não ser um ferimento eminentemente letal, até a artéria se romper, naquele momento. Khanat sabia que iria sangrar até a morte se não conseguisse parar o sangramento rapidamente. Mas, a superfície onde ele estava ficou tão inclinada que o derrubou para trás, junto com uma dezena de corpos, para dentro da arena.

No centro do grande círculo de terra batida, onde em alguns pontos o pavimento de rocha irregular aflorava estavam Torghal e Grenda. O humano meio-orc era quase um gigante, tinha cerca de dois metros de altura e carregava pesados machados de guerra em suas mãos. Armas que os vigorosos guerreiros anões utilizavam com a força de dois braços, ele manuseava com apenas um, como se fossem machados curtos. Raças mestiças não eram tão incomuns, após a guerra, mas em geral, encontra-se miscigenação entre humanos e anões, o que fazia de Torghal um espécime raro. Seu valor, no mercado de escravos gladiadores era altíssimo, mas não se comparava ao valor de Grenda. Como uma mestiça meio elfa meio anã, ela era considerada por muitos, a única de sua raça. Seu porte era semelhante ao de uma criança humana de cerca de 12 anos, porém com a aparência de uma elfa totalmente desenvolvida, salvo as proporções adequadas à sua estatura de um metro e meio. Não herdara muito da estrutura física dos anões, exceto pela altura, porém, sua habilidade em combate só se comparava à força bruta de Torghal. A pequenina usava um escudo pequeno, redondo que erguia com seu braço esquerdo, enquanto a mão direita carregava uma espada curta de lâmina reta e ponta triangular. Os apresentadores da arena comumente os chamavam de tambor e flauta, pois enquanto Torghal tinha o ímpeto e o estrondo, Grenda tinha a precisão e a graciosidade. Lutando em dupla, eram a maior atração da arena de Nuthenim, apenas trazidos para combate quando membros da Casa dos Nuthen assistiam aos jogos.

Khanat rolou, afastando-se, dos corpos e dos feridos e, quando ia, muito receoso, pedir socorro à dupla banhada de sangue dos inúmeros oponentes caídos a seu redor, uma porta de madeira tombou à sua direita, quase esmagando seu braço que não estava ferido. Uma criatura saltou da escuridão, através da porta. Tratava-se de um urso-vil. A criatura, semelhante a um urso pardo, possui o dobro de seu tamanho e algumas partes do corpo cobertas por cascos semelhantes em textura aos de uma tartaruga, porém em um formato que lembra peças de armadura, posto que protegem seu crânio, partes do tórax e algumas articulações. Em algumas dessas articulações e ao longo do antebraço e coluna, as placas se alongam para fora do corpo, em profusões semelhantes a lâminas de cerca de dez centímetros. Como se isso não bastasse, a criatura possui ainda as características que tornam mesmo o urso pardo comum, um animal extremamente perigoso, sendo muito mais feroz que seu parente. Felizmente, o monstro ignorou Khanat e partiu em disparada na direção da dupla no centro da arena.

A arena circular com cerca de cinqüenta metros de diâmetro terminava em muros de mais de cinco metros de altura. A forte iluminação de tochas, e imensos braseiros sobre pilares que se erguiam do chão da arena, era intensificada e refletida de espelhos metálicos de volta às areias claras. De dentro da área de combate, mal se podia enxergar a grande platéia ao redor, na penumbra. Mas, a gritaria foi ensurdecedora quando o urso-vil urrou, correndo em direção a Torghal. Grendel rapidamente saltou e se agarrou as costas de seu parceiro, escalando-o até seu ombro. Em menos de dois segundos ela estava arremessando facas sobre o urso enquanto o guerreiro se esquivava dos ataques da criatura. Porém, a estratégia parecia ter como resultado apenas a irritação do urso-vil, que se tornava cada vez mais feroz.

Em meio à confusão de sons, Khanat conseguiu distinguir passos pesados e o ruído de algo metálico sendo arrastado em alguma superfície rochosa. Os sons vinham de dentro do túnel de onde o urso saíra e ficavam cada vez mais altos e nítidos. Um urro agudo, seguido de gargalhadas ecoou da escuridão do túnel. Só nesse momento o humano meio-elfo recobrou sua completa consciência, infelizmente, dando-se conta de que sua última lembrança era a do sonho com a elfa. Antes disso havia apenas vazio, não apenas em sua mente, mas também em seu corpo, algo precisava ser preenchido. Olhou para seu braço e começou a sentir, também, frio – Talvez seja falta de sangue. – pensou.

Atrás de Khanat, alguns dos feridos começavam a recobrar a consciência e rastejavam apavorados uns para longe dos outros, gritando. Os que conseguiram se levantar corriam para pegar alguma das armas caídas no chão da arena, provavelmente outrora utilizadas pelos oponentes derrotados de Torghal e Grenda. Logo os anões e humanos feridos também estavam lutando uns contra os outros, para o delírio da platéia, enquanto os dois verdadeiros gladiadores enfrentavam a fera no meio da arena.

Logo um homem se destacou em meio aos feridos. O homem negro e esguio era bastante habilidoso com o arco e eliminou rapidamente cinco dos “inimigos” que se aproximavam. Quando as flechas da aljava que estava ao lado do arco acabaram, ele apanhou uma adaga e correu na direção de Khanat, afastando-se dos demais feridos. O meio-elfo percebeu então, que pouco atrás de onde estava deitado, parcialmente sob a porta que baixou, estava uma aljava com algumas flechas. Khanat apanhou uma das flechas, se colocou de joelhos, então agachado e ergueu-se com dificuldade. Nessa altura o homem já estava muito próximo e se jogou sobre ele, golpeando-o, primeiramente com o cabo da adaga.

O imenso urso tinha três adagas presas em seu corpo e continuava atacando Torghal ferozmente. Grenda, percebendo que, preocupando-se com ela, o bárbaro estava limitando seus golpes e esquivas, saltou das costas de seu parceiro e correu até ficar a cerca de cinco metros de distância do monstro. Torghal, agora mais livre, foi se esquivando e contra atacando a criatura de maneira mais violenta. Mas, mesmo assim, o urso-vil conseguia se defender, expondo aos ataques do meio-orc apenas as partes de seu corpo protegidas pelos cascos. Grenda, percebendo que daquela forma, a luta não terminaria tão cedo, desprendeu de seu cinto um pequeno frasco de conteúdo líquido cinza-esverdeado, trincou-o com um leve golpe com a guarda da espada e arremessou sobre a fera. O recipiente se chocou contra a cabeça cascuda do urso, se quebrou e o líquido escorreu pelas costas da criatura. Dois segundos depois começava a subir fumaça das costas do monstro, que urrou alto, virando-se em direção à Grenda.

– Sua pequena idiota! – gritou Torghal – O ácido era para enfrentarmos os trolls!

Nesse instante, o homem que estava sobre Khanat, quase o degolando com a adaga, enquanto o meio-elfo tentava detê-lo, disputando a pouca força que restara em seu único braço são contra ambos os braços do arqueiro, ouviu o grito de Torghal e se conteve, olhando adiante, para dentro do túnel, aterrorizado. Khanat sabia o que aquilo significava – O troll está na arena, atrás de nós. – pensou. Mas, nesse momento, todos os seus instintos o impeliam a matar aquele homem, que parecia representara a ameaça imediata à sua vida. Ele não hesitou, com um movimento rápido, cravou uma lança no pescoço do seu atacante e, após uma cotovelada, virou-se, pondo-se sobre ele. O homem, de bruços, agonizava, enquanto Khanat, sentado sobre suas costas, arrancava a flecha de seu pescoço, permitindo que mais sangue derramasse. Agora suas mãos empurravam a nuca do homem, forçando seu rosto contra o chão. A imagem de suas mãos na nuca de um oponente, sua palma na base do crânio, enquanto o inimigo agonizava pareceu ser estranhamente familiar. Ele sentia que havia algo mais a fazer, algo que preencheria o vazio que sentia e, ao mesmo tempo, sentia seu corpo enfraquecer pelo esforço realizado em condições tão precárias. Faltava-lhe sangue, ele sentia, mas não era esse o vazio que o consumia. Algo deveria ser tomado daquele homem, algo que o ajudaria, que acabaria com o vazio.

Nada foi perceptível ao olho dos homens e anões da platéia, tampouco aos mestiços que lutavam concentrados no urso-vil. Mas, para Khanat, uma vida inteira passou diante de seus olhos. A vida de um caçador que vivia em uma pequena caverna sem ligação com o mundo subterrâneo, com sua família e os demais membros de sua tribo. Era o maior dos caçadores da tribo, tido como líder de caça na superfície, até que um dia uma expedição escravista de anões capturou toda a sua tribo. Ele e poucos homens resistiram e lutaram, mas ele foi o único que sobreviveu. Sem jamais ter se sujeitado ao trabalho escravo, foi vendido como gladiador em potencial, mas por conta de sua agressividade e indisciplina, acabou sendo espancado e novamente vendido, mas dessa vez, para servir de comida e chamariz às feras da arena. Todo o processo não durou mais do que um segundo e Khanat abriu os olhos atordoado. Olhando a frente, viu os dois imensos olhos vermelhos, com retinas verdes que o observavam curiosos e sentiu o hálito de carne podre do troll.

– Relaxe, Tambor! – gritou Grenda enquanto o urso-vil preparava-se para saltar sobre ela – Eu cuido disso!

– Não vou te dar esse prazer, cretina! – a frase de Torghal, que odiava ser chamado de tambor, foi seguida por um urro enquanto ele arremessou um de seus machados nas costas do monstro, que cambaleou.

Grenda e Torghal, como se disputassem uma corrida, partiram para cima da criatura. A pequenina, que chegou antes, cravou sua espada através do abdome do monstro, logo abaixo do casco torácico, em sentido ascendente. Esperava que o comprimento de sua lâmina fosse suficiente para alcançar o coração do monstro, entrando a partir da barriga. Mas, quando a fera olhou para ela e rugiu, ela percebeu que não teve sucesso em sua investida e, rolando, em um rápido movimento, para trás, escapou da patada do urso. Assim, que firmou suas pernas e colocou-se novamente de guarda, Grenda assistiu a decapitação da criatura, quando Torghal saltou à altura de sua cabeça e, segurando o único machado que estava em sua posse com ambas as mãos, desferiu um poderoso golpe no pescoço do urso-vil, a partir de sua retaguarda. Com a cabeça pendurada apenas por alguns ligamentos musculares, o monstro tombou, morto e derrotado, para delírio da platéia.

Khanat encarava o troll. A criatura estava agachada, com as pernas dobradas e as costas arqueadas para ficar próximo à altura do rosto do meio-elfo. Apesar de seus olhos não darem a impressão de qualquer mente inteligente estar abrigada naquele crânio, sua expressão parecia ser de perplexidade. O monstro sabe que algo de estranho havia ocorrido com Khanat. O troll pôs-se de pé. Tem cerca de três metros de altura, um corpo esguio, de silhueta humanóide, membros longos e cor verde escura, semelhante à do musgo dos pântanos da superfície. O que seria sua pele ora parece ser coberta por escamas, ora por um couro grosso esverdeado, apodrecido em algumas partes, coberto por liquens em outras. Da extremidade de seus dedos se destacam unhas longas e negras, algumas delas quebradas. Seu rosto alongado e de nariz protuberante parece ter sido deformado pela putrefação apenas vista em defuntos, ou nas histórias de bruxas contadas às crianças para que tenham medo de se aventurar longe das cidades. Uma crina, de pelos negros, parte de sua nuca até a metade da coluna, onde se alastra de ombro a ombro, cobrindo metade das costas da criatura. Os caninos superiores, visíveis para fora da boca, assemelhavam-se aos de elefantes selvagens, exceto pela cor amarelada. Seu fedor é indescritível.

Khanat aproveitou a deixa para agarrar o arco, as aljavas e rolar para o lado, afastando-se do troll. Só então percebeu que agarrara os itens, cada qual com uma mão e rolara sem sentir dor. Seu braço estava reconstituído e, mais do que isso, sentia seu corpo pulsar em vigor. Algumas das pessoas da platéia, agora olhavam sem compreender exatamente o que havia acontecido. Quanto ao Khanat, por uma fração de segundo, quase perdeu a sanidade, ou ao menos o senso de identidade, ao ver o homem negro caído, com o braço esquerdo repleto de hematomas. Contudo, eram os trapos de couro que ele mesmo vestia que estavam rasgados sem tiras na manga esquerda.

O troll saltou, passando sobre o meio elfo e descendo sobre dois dos feridos que ainda agonizavam. Arrancou a cabeça de um com uma mordida e esmagou a do outro com dois golpes de punho. Parte da platéia gritava, outra ficava perplexa. É possível que a maioria dos que estavam perplexos se perguntasse o quão alto o troll era capaz de saltar. O monstro trazia consigo um porrete de pedra, cuja extremidade tinha a largura de uma pequena pilastra de sustentação. Várias correntes estavam penduradas de suas algemas, nos pulsos e nos tornozelos, porém, enquanto a maioria era curta, uma das correntes do pulso esquerdo tinha cerca de quatro metros de comprimento.

Khanat sentia-se estranhamento confortável com o arco nas mãos, sentia-se quase impelido a usá-lo. Amarrou a aljava às costas e catou as flechas espalhadas ao redor, enquanto o troll mastigava a cabeça do último sobrevivente dentre os feridos e inconscientes jogados à arena com ele. Agora, na arena estavam apenas, o troll, ele e os dois gladiadores que caminhavam calmamente em direção ao monstro que parecia os ignorar, comendo de costas para o centro da arena.

Prólogo

A guerra se estendeu por dois séculos antes que houvesse qualquer desequilíbrio. Humanos, orcs, anões e elfos destruíam-se em fúria, mas eram apenas peões, nas mãos dos verdadeiros generais, os dragões. Havia quatro Reis Dragão, adorados como Deuses pelas raças humanóides, embora muitos alegassem que a existência de tais criaturas não passasse de uma Lenda antiga, perpetuada pelos dragões Anciãos. De fato, era tão raro avistar até mesmo um dragão ancião que muitos nem mesmo acreditavam na existência destes. Já os dragões comuns, muitos dos quais ainda eram jovens demais para ter uma mente que fosse além da de um simples animal predador, eram avistados com frequência.

Contam as histórias antigas que a guerra começou a caminhar para seu desfecho quando os orcs começaram a domar filhotes de dragões vermelhos e usá-los em combate. As outras raças tomaram tal atitude como uma ofensa que superava qualquer outra já cometida por aquele povo vil e se uniram contra eles.

Contudo, a engenhosidade dos orcs fora subestimada pelos inimigos. Sabendo que se equiparavam em combate aos humanos e os anões, mas que seu poder místico não chegava ao nível aquele dos elfos, eles sabiam qual era o primeiro inimigo que deveria cair. A estratégia militar dos orcs, na maioria dos casos se resume em derrubar o inimigo mais ameaçador primeiro. Assim, com dezenas de dragões vermelhos, cuspidores de fogo, sob seu comando a Horda Vermelha, como se auto-intitularam os orcs guerreiros, incendiaram a maior parte das florestas dos Reinos da Lua, dizimando quase todas as grandes nações élficas em menos de um mês.

O golpe cruel desestabilizou a aliança entre elfos, anões e humanos. Logo os anões começaram a domar dragões negros, do fundo das cavernas e coração das montanhas, para defender seus reinos subterrâneos das forças de invasão da Horda Vermelha. E, cada vez mais diminuíam seu apoio às raças da superfície, voltando-se à defesa de seu próprio povo. As grandes cidades humanas resistiam inabaláveis aos ataques dos orcs, conseguindo até mesmo repelir os ataques dos jovens dragões a serviço da Horda Vermelha. Porém, nas vilas e no campo, a situação era cada vez mais grave e, em poucos anos, a fome e a desesperança, alastraram-se como uma epidemia nas capitais dos homens. Os elfos, em sua grande maioria, migraram para outras terras, abandonando o continente. Ao ponto de hoje ser quase tão raro se avistar um elfo quanto um dragão adulto.

Os homens começavam a buscar refúgio no subsolo junto aos anões que durante décadas não negaram abrigo aos antigos aliados. Porém, quando o número de refugiados começou a tornar o alimento, o trabalho e o espaço nas cidades subterrâneas escassos, os anões fecharam as portas de seus reinos. Pouco se sabe do que ocorreu com os humanos abandonados à própria sorte na superfície. Boatos existem acerca de torres protegidas por poderosos feiticeiros, cidades fortalezas nas montanhas e povos nômades que vagam pelos desertos e navegam pelos grandes rios. Mas, tendo em vista a ferocidade dos orcs e os acontecimentos que se seguiram, poucos acreditam na possibilidade de sobrevivência de muitas comunidades humanas acima da superfície.

Diz-se que, neste momento em que a superfície parecia estar perdida para os orcs, a última nação élfica realizou um ato desesperado. Com a manipulação de energia dos planos inferiores, aqueles que passaram a ser conhecidos a partir desse momento como elfos negros, evocaram um exército de demônios. Comandando tal arma, em um esforço que custou a vida da maior parte de seu povo, os elfos negros devastaram grande parte da Horda Vermelha.

De acordo com A Lenda dos Dragões, foi devido ao desequilíbrio gerado pelo uso de magia negra tão poderosa que os Reis Dragão acordaram. De imediato, os orcs perderam controle sobre os dragões vermelhos, que em fúria e obediência ao Rei Dragão Vermelho, reduziram o Império Orc à pequenas tribos esparsas e desarticuladas entre si socialmente. Aos elfos, porém, o castigo foi pior. Todos os elfos foram condenados pelo Rei Dragão Verde a não envelhecer e à esterilidade. Sem a capacidade de se reproduzir os elfos viram em sua parcial imortalidade a única forma de manter sua espécie protegida da extinção e se exilaram de todas as relações com outras espécies com as quais poderiam entrar em qualquer tipo de conflito.

Os elfos que ainda permaneciam nas poucas florestas da superfície passaram a adotar diversos métodos, muitos dos quais com base em magia para proteger seus territórios. Já os elfos negros tornaram a buscaram e magia negra e a necromancia. Não obstante, com a decadência das raças civilizadas na superfície, o grande continente foi se tornando um ambiente cada vez mais selvagem e dominado por criaturas que antes eram contidas pelo poder das quatro raças humanóides.

Apesar de seus crimes terem sidos considerados menos graves pelos Reis Dragão, os humanos e os anões no subsolo sofreram significativamente quando, os outrora domesticados jovens dragões negros se tornaram ferozes e selvagens sob a influência do Rei Dragão Negro. Muitas cidades de menor porte foram perdidas e túneis com mais de 500 anos desabaram, isolando algumas das grandes cidades do submundo e dando origem a reinados distintos. Muitos dos quais viriam a guerrear entre si ao longo dos séculos que seguiram após os Reis Dragão novamente desaparecerem.

Hoje, homens e anões vivem em diversos reinos no submundo. Apenas anciãos dedicados a manter os registros históricos conhecem a maior parte da história da Guerra da Superfície e, mesmo eles, não estão certos de quais partes de fato ocorreram e quais são delírios de alguma mente desesperada em demonstrar a gravidade dos eventos. A maior parte dos cultos religiosos atuais data de épocas recentes e se baseia em divindades e dogmas tão variados e inter-relacionados que raramente é possível determinar linhas de doutrinas específicas. Muito embora, haja tamanha miscigenação, conflitos ocorrem a todo tempo, muitos deles violentos. Os Reis Dragão são ainda adorados por alguns, comumente chamados de Antigos Deuses. Contudo aqueles ligados à adoração dos Antigos Deuses são, em geral, feiticeiros, grupo rechaçado pela maior parte das demais classes do submundo, em especial por magos e guerreiros.

Apesar de o contato com a superfície não ser completamente nulo, as saídas do subterrâneo são poucas e geralmente extremamente bem guardadas pelo exército, ou milícia, locais. A exploração da superfície era pouca, resumindo-se à caça nas proximidades das entradas das cavernas e às excursões esporádicas de aventureiros em busca de itens que possam ser comercializados no submundo. Contudo, com o passar das décadas, após a diminuição dos conflitos e a unificação de diversos reinos subterrâneos sob a bandeira da Casa de Lothatyr, um período de incentivo à exploração da superfície se iniciou. Segundo muitos afirmam, devido à proximidade com o limiar de produção de alimentos e de espaço nas cidades subterrâneas. De fato, as técnicas refinadas de escavação e arquitetura dos antepassados anões perderam-se no tempo e tornou-se inviável expandir adequadamente às cidades subterrâneas. Os humanos pouco são capazes de fornecer auxílio nesse campo e em geral acabam tomando a frente das expedições de exploração da superfície, enquanto anões lançam expedições às profundezas. Enquanto a fome e o crime começam a se intensificar nos reinos subterrâneos, nem em direção aos perigos da superfície, nem aos das profundezas parece surgir alternativas aos homens e anões.

Mesmo aqueles humanos e anões que não acreditam nas lendas, amaldiçoam os orcs, os elfos negros e acima de tudo, os Reis Dragão.